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Prólogo do romance "O Túnel dos Libertinos", de Iam Godoy


O velho cuco descascado pelo tempo acabou de anunciar às nove horas. O velho libertino se esforça pela terceira vez para subir numa cadeira e suas costas doem. Antigamente poderia montar em uma égua selvagem à unha e fodê-la (quando fosse necessário) pelo caminho, tal qual Tia Paculla rezou.

Hoje é apenas um saco de bosta, carne e ossos cansados...

O laço acima de sua cabeça fazia uma dança macabra e ritmada e no momento certo deslizaria suavemente por sua fronte, suada e marcada pelo tempo. O velho sente uma pequena palpitação em seu pênis e ri. As costas doem novamente. Aquela pequena ereção deu uma nova luz ao velho e este desceu da cadeira (sem se queixar das suas costas) e foi em direção da cozinha. Seu velho gato preto o seguia com os olhos, verdes como grãos de Amsterdã. Nas mãos trazia um bizarro arguilê, tão surrado e sujo que parecia ser feito de carne humana. Ele então se sentou, pegou uma vistosa caixa de sândalo e dela retirou um pequeno embrulho. Com aquela pasta, tão negra quando o ônix fez pequenas esferas e as pôs de lado enquanto esquentava alguns discos de carvão. Se fosse para morrer que fosse pelas suas próprias regras, igual ao samurai que visualiza o fim de Endo ou a sensação de calor que sentiram os dinossauros, segundos antes de serem exterminados numa explosão.

O carvão já queimava os pequenos casulos de haxixe e ópio. O velho já sentia aquele maldito gênio se apossando do seu corpo e lhe presenteando com sensações nas mais diversas formas. Numa explosão, enche o quarto de fumaça expelida. O arguilê borbulha uma canção de amor e morte e sua fumaça assemelha-se à dança de uma ninfa do vício: o velho chora. Um choque perfurante como uma adaga lhe atravessa o peito. Sente um gosto de morte na boca e vomita convulsivamente. Os olhos ardem como se tivessem vidro e os dentes rangem uma sonata fúnebre... o veneno curtido nos casulos já devia estar fazendo o seu efeito.

O velho, apesar da agonia do veneno que dilacerava suas entranhas, permaneceu imóvel. A fumaça inebriante do ópio e do cânhamo bailava vitoriosa ao seu redor como uma sinfonia de Wagner e o velho libertino sentiu novamente seu membro enrijecer. Com certo esforço se pôs sentado e abriu suas calças pegando aquele órgão, que estranhamente pulsava em pura vida como se quisesse se separar do corpo que morria. À sua frente um grotesco e disforme túnel se apresentou e o libertino reconheceu naquele lugar a casa em que passou os anos mais sofridos de sua infância. No decorrer do túnel outras imagens bruxuleavam sem forma definida, trazendo lembranças de épocas movidas à luxúria e banhadas no exagero. O velho se masturba e então adentra naquele grande corredor, onde retalhos do passado se apresentam aos suicidas do Purgatório tal quais são ditos nas Escrituras Sagradas.

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