Umbra-Projekt

umbratic aesthetics

Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Terra
Magazine
, em abril de 2010. Leia também "Decompondo uma biblioteca".


 



Segunda-feira, 28/6/2010
Onde botar
os livros?


Ainda lerei Os Buddenbrooks, de Thomas Mann? Provavelmente não. Já atravessei as centenas de páginas de A Montanha Mágica, romance considerado por Ítalo Calvino como a
introdução mais completa à cultura do século XX. De quebra, li as novelas Morte
em Veneza
O Eleito eTônio Kröger. Chega de Mann.
Nem pelo Doutor
Fausto
 ou José e Seus Irmãos eu me
aventurarei mais.

E por que teimo em guardar os livros se tenho certeza que nunca os lerei? Por
cupidez ou esquecimento. Mais provavelmente porque os deixei na oitava
prateleira de minha estante monumental, onde quase nunca os alcanço. Amamos até
mesmo os que nunca lemos, pois eles fazem parte de nossa história. O desmonte
de uma biblioteca nos obriga a repensar o significado dos livros, a avaliar se
continuamos ou não com eles, a desfazer um contrato amoroso que dura trinta ou
quarenta anos. 

O mais difícil em mudar de casa é a troca de hábitos. As casas são geralmente
amplas e possuem cômodos largos. Deixamos a biblioteca proliferar em estantes
de até quatro metros de altura. Alimentamos a ilusão de uma eterna juventude,
de continuar capazes de subir em escadas e alcançar um livro esquecido,
comprado talvez na juventude. 

― Ah! Desse aqui não posso me desfazer: Vento Forte, de Miguel
Angel Asturias. Comprei num sebo de calçada, ao lado do Cinema Trianon. O
cinema nem existe mais. Também caiu de moda ler escritores latino-americanos.
Era uma febre nos anos setenta e oitenta. A meninada não se liga no papo de
América Latina. Usam camisa com retrato do Che, nem sei por quê. Os
intelectuais de esquerda nos tempos da repressão liam Onetti, Arguedas, Rulfo,
Galeano, Vallejo e escutavam a música dos irmãos Parra. Torciam o nariz para
Cortázar e queimavam os livros de Borges, dizendo que ele se vendeu a Pinochet.
No final das contas, o grande sobrevivente da literatura foi mesmo
Borges. 

É bem difícil dar um novo destino aos livros que amamos e que nos custaram
caro. Organizei uma biblioteca de cerca de cinquenta volumes e dei de presente
a um sobrinho. Como gostaria de possuir aqueles livros aos quinze anos! Lembrei
um comentário de Claude Lévi-Strauss sobre os índios nambikwara, em Tristes
Trópicos
. Davam roupas aos índios nus, eles as colocavam sobre o
corpo durante algumas horas e depois largavam os molambos pelos chãos da tribo.
Não passavam de trapos desnecessários às suas vidas. 

Para muita gente os livros são trapos desnecessários. Ficaria magoado se nada
significassem para os meus sobrinhos. Sempre os presenteei com livros e recebi
agradecimentos constrangidos. Acredito que nem todos são como José Mindlin, mas
não custa nada demonstrar um pouco de interesse. 

Doar livros é bem difícil. As bibliotecas públicas não têm espaço, nem
funcionários que os classifiquem e cuidem deles. Em muitas bibliotecas os
livros ficam amontoados e terminam se estragando. Morro de medo que os volumes
de Pedro Nava sejam devorados por cupins e traças. 

Os livros são o meu baú de ossos. Gosto de carregá-los como Remédios, a Bela.
Lembram a personagem de Gabriel García Márquez, em Cem
anos de Solidão
? Ela arrastava um saco com os ossos dos
antepassados. Carrego meus livros comigo. De vez em quando deixo alguns pelo
caminho. Essa frase é de péssimo gosto. Do mesmo mau gosto da classe média que
não pensa em cômodos para bibliotecas quando constrói apartamentos. 

Ronaldo Correia de Brito 
Recife, 28/6/2010


Nota do Editor

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Verdade! O livro é uma paixão...um fragmento de nossa alma. É impossível abrir mão sem cauar algum dano.
A cultura é o alimento do espírito. É o que nos liberta da escravidão dos instintos vivida pelos animais.
Se a morte do corpo físico é apenas uma mudança renovadora de estado, a morte do espírito por falta do seu alimento é a única a temer.
Definitivamente, um cômodo destinado apenas à biblioteca seria o ideal. Particularmente não me desfaço de meus livros, tenho ciúmes de todos eles, e não deixo nem mesmo pegarem a claridade do sol para que não desbotem. Resultado disso é uma parede do meu apartamento inutilizada para outros fins que não o armazenamento de meu tesouro literário.
Sonho com a vinda de tempos em que terei condições financeiras para comprar meu imóvel próprio, que terá um cômodo reservado apenas para o fim da leitura. Até lá, todo cuidado é pouco. E todo espaço também...
Não temos os recursos patrimonais ou talvez intelectuais (pelo maior tempo de que dispôs para de dedicar aos livros) do grande José Midlin. Mas podemos compartilhar essa paixão com igual entusiasmo. É o que importa.

Tenho também uma parede tomada : )

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